Arquivo da categoria: TEXTOS

É tudo uma mentira!

A partir de agora, Câimbra não é mais uma dor muscular. Câimbra é uma banda de São Paulo, que grita em português e toca o cotidiano pesado, lento e desesperado da cidade. A banda nasceu num estúdio da zona oeste, em meio a encontros e desencontros de seus 5 integrantes. Todos vêm de outras bandas, mas juntaram suas diferentes influências musicais num Sludge Rock desconstruído e fragmentado. Como deve ser.


Câimbra nasceu no estúdio, mas se desenvolveu no palco. Gostam é de tocar. Já se apresentaram em várias cidades do interior paulista, nas melhores e piores casas da capital, sempre com a mesma performance intensa que não deixa esquecer: “Aqui não há portas de saída”.

 Colocar pra tocar o EP de estréia do Câimbra, é como uma epifania paradoxal. É como descobrir que existe um caminho que nem sabíamos mais procurar, ou não queremos encontrar. Um desconforto prazeroso. Cinco faixas gravadas ao vivo, num grito tão verdadeiro, que como o nome do disco, vem para nos chacoalhar: É tudo uma mentira.

CÂIMBRA – É TUDO UMA MENTIRA (2011)
DOWLOAD do EP
Bandcamp 
Sixtyone
Myspace
Soundcloud 
FACEBOOK

Contato Câimbra:
piettro.rms@gmail.com

post: Gustavo McNair

Francis Alÿs: Indispensável

Eu não conhecia Francis Alÿs. Quando me deparei com um de seus vídeos projetados em  uma das paredes do MOMA, em Nova Iorque, senti que não conhecia nada.

Francis Alÿs é um belga que se formou em arquitetura em Tournai, depois em engenharia em Veneza, e depois se mudou para a Cidade do México. No começo dos anos 90, seus vídeos começaram a aparecer.

No vídeo que estava sendo projetado, um gringo alto e magro (o próprio), empurrava um bloco de gelo enorme pela cidade do méxico até ele derreter completamente. No fim, as imagens urbanas davam lugar ao título da obra: Sometimes Making Something Leads to Nothing (1997).

Pronto.

Senti que aquela simplicidade trazia mais riqueza que todo o resto que vira no museu. Passei um bom tempo assistindo aos outros vídeos, um melhor que o outro, e descobrindo mais desse artista que fala tão bem sobre tudo com tão pouco.

Francis Alÿs é indispensável porque discute a arte, o mundo e a sociedade como nenhuma poucas obras complexas conseguem. Suas idéias misturam intenção e frustração. No melhor sentido, o paradoxo que caracteriza todo a nossa era.

Nunca vi ninguém resumir tão bem nossos tempos.

Assista seus trabalhos em seu site oficial:
http://www.francisalys.com/

post: Gustavo McNair

A big mistake for a “small” word

A banda Faces foi formada em 1969, pelos remanecentes do grupo Small Faces, que se juntaram com a já dupla Rod Stewart e Ronnie Wood. Com o fim do Jeff Beck Group (que contava com Rod, Ronnie e Jeff), os três passaram a frequentar jam sessions com os ex-membros do Vanilla Fudge. Dessa jam, nasceu a sensacional banda Cactus, mas sem nenhum desses três músicos.

Jeff Beck acabou sofrendo um grave acidente de carro, e ficou afastado da música por um ano. Ronnie e Rod sairam para formar o Faces. Outros grandes músicos se juntaram ao Cactus, que acabou virando uma super banda de Hard Rock (vá atrás).

O Small Faces era liderado pelo Steve Marriott e Ronnie Lane. Com a saída de Marriott para formar o Humble Pie (ele se juntou com Peter Frampton, ex- The Herd), Ronnie Lane convidou Wood e Stewart para a banda, que virou Faces.

O primeiro disco da banda, “First Step”, saiu no começo dos anos 70. Na capa, Ron Wood aparece lendo um livreto sobre os primeiros passos para tocar guitarra.

Uma curiosidade que revoltou a banda na época, foi que a edição americana do álbum saiu com o nome Small Faces na capa. Gafe histórica.

Edição britânica, original

Edição americana, com o título errado

x
x

x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
O Faces lançou 5 discos, o último já em meio a desentendimentos, frente ao “estrelismo” de Rod Stewart, que já estava fazendo sucesso com 2 discos solo. Ron Wood acabou se juntando definitivamente aos Stones (ele já estava apoiando a banda de vez em quando), e a banda termina em 75. Atualmente, existem rumores de que a dulpa Wood e Stewart estão armando um retorno da banda com a participação de Mick Hucknal, ex-vocal do Simply Red.

No mais, First Step talvez não seja melhor que A Nod Is as Good as a Wink… to a Blind Horse (1971), terceiro disco da banda (e na minha opinião o melhor) mas é um grande disco dos maravilhosos anos 70.

post: Gustavo McNair

Sem rosto – Capítulo 1

Um dia ele acordou com outro rosto.
Levantou caído, mas não lembrava de ter bebido. Aliás não lembrava de nada.
Talvez tivesse bebido.

Olhou no espelho, e viu outro rosto.
Era ele, sabia.
Mas tinha outra aparência, e consciência.

Tava cansado desse papo de ressaca.
Desculpa, mas é uma desculpa.
Beber, é, sempre.

Resolveu sair, e ser.
Normalmente, estava mais só do que nunca.
Ninguém mais notara a mudança.

Começou a repensar se lembrava.
A cara, a própria, cara.
A nova cara velha.

Pouco tempo passado, ficou confortável.
Com a situação, com sua atuação.
Estava se saindo bem como novo mesmo.

texto: Gustavo McNair

A questão dos adesivos de famíla feliz nos carros

Esta questão tornou-se uma questão a partir do momento que virou epidemia. Impossível não reparar esse reparo de personalidade.
A busca pela particularidade já é tão frenética, que além de ambulante, agora vai de carro.

A iconização da imagem à particularidade é tão extrema depois das multiplasquestões, que ultrapassou as portas de banheiros, cédulas de votação e o seu big brother preferido: virou adesivo!

– Homem de negócios, esposa que joga tênis, um gato.

– Currasqueiro, consumidora, filho skatista, um bebê, um cachorro feliz.

– Uma simples familia feliz, com dois filhos, dois cachorros, peixe, peixe.

Entre em adesivosdefamilia.com, ou vá para uma banca próxima (sim, a particularização está nas pequenas coisas!), escolha sua combinação, e seja feliz para sempre!

texto: Gustavo McNair

2010 segundo 2011 (ou vice-versa)

Como diria um autor gaúcho famigerado, “31 de dezembro é igual a 1º de janeiro”. Não compartilho desse ritual de passagem e motivo-para-promessas-provavelmente-efêmeras chamado reveillon, que faz a maioria das pessoas esquecerem de noções básicas de convivência e civilização, como viver sem filas ou esperas. Mas que um novo ano serve para respirarmos e pensarmos no ano que passou, até concordo.

Abaixo, veja alguns trabalhos que selecionamos, e que ajudam a visualizar 2010, projetando 2011.

Institucional Attack (Eduardo Srur)

Intervenção Touro Bandido na Cow Parade

Buskers no Metrô para o Red Bull Sounderground

SWU Arts: Oficial, Montagem e Urban Trash Art

Clipe Rock Rocket – Pérola da Noite

No estúdio com… Rock Rocket e com… Hitchcocks

Rádio Kanastra 5ª Temporada (ainda em andamento): Psychobilly, especial Grateful Dead, @Canastra (progressivo brasileiro) e No Wave

Desafio Sebrae 2010

2 vídeos de Fernando De La Rua (violonista flamenco)

post: Gustavo McNair

Um pouco de Metal Machine Music

<play and read>

Antes de começar, já aviso que não sou o maior conhecedor de Metal Machine Music. Como provavelmente a maioria dos fãs de Lou Reed, ouvi o disco uma vez só, e acho que foi suficiente. Mas não perderia a oportunidade de, vinte e cinco anos depois, ouvir o próprio tocando o famigerado álbum, que foi apontado como pior do mundo por algumas revistas main stream da época. Segundo a descrição da Rolling Stone: “the tubular groaning of a galactic refrigerator” and as displeasing to experience as “a night in a bus terminal”.

Lançado em 75 pela RCA, Metal Machine Music é o quinto álbum solo do Reed pós-Velvet Underground. Trata-se de quatro faixas, que na época foram lançadas uma em cada lado de dois vinis, de pura barulheira de reverbs e delays de guitarras, sem bateria, e sem voz. Parece claro que no meio dos anos 70, quando o punk estava começando e deixando todo mundo louco, a disco fervia, um lançamento assim fosse esculhambado e retirado das lojas 3 meses depois. E foi o que aconteceu. O noise rock, industrial music, sound art ou qualquer outra dessas rotulações pós-modernas que hoje tratam esse álbum como referência, eram ainda remotas, estavam engatinhando.

Mas o que hoje parece mais fácil de enxergar, é que Lou Reed, avant-garde que é, estava pensando à frente. Teve uma previsão conceitual certeira, mas precipitada. E música, como arte que é, deve ser alinhada e dialogar com o seu tempo, propondo uma auto-discussão contemporânea. Pensou certo, mas fez cedo. Este disco lançado hoje, provavelmente não chocaria ninguém.

Reed declarou numa entrevista à BBC na época, que o álbum é uma celebração ao Rock, que não precisa de voz ou bateria, a guitarra é a alma. Claro que é perfeitamente discutível se o que ele fez era (ou é) rock ou não. Mas o certo é que, atualmente, várias bandas formam uma vertente, que dizem ter saído do rock, se utilizando desses conceitos com banalidade. Hoje rock virou uma generalidade, uma árvore imensa com galhos e mais galhos que não param de se ramificar, e se distanciam cada vez mais de sua raiz provedora.

Lou Reed resolveu formar o Metal Machine Trio, em 2002, depois que viu o saxofonista alemão Ulrich Krieger interpretando o disco. Aos dois, juntou-se o músico eletrônico do Brooklyn Sarth Calhoun. Em meio a tantos sub-gêneros, réplicas e derivados, ver um mestre executando no Brasil sua obra mais polêmica, antecessora ao que hoje ainda se considera experimental, só pode causar uma certa euforia, esgotando os ingressos com meia hora de venda.

Na fila para comprar, em meio à tensão que todos enfrentavam vendo suas chances diminuindo numa progressão preocupante, vi pessoas conversando se ele tocaria Velvet Underground, ou alguma do Transformer (seu solo mais famoso). Espero que elas saibam o que estão fazendo.

Ou talvez, Lou Reed consiga o chock e desconforto que provocou e incomodou anos atrás. Vai ser, no mínimo, denso.

post: Gustavo